Isso não é uma invasão: história e memórias de Brasília. Ana Elisa Carnaúba, Julia Bianchi e Maria Fernanda Derntl, 2025

A história da Brasília monumental, com seus palácios, superquadras e amplos espaços verdes, já foi contada muitas vezes, talvez por vezes demais. Esta exposição propõe olhar para Brasília a partir de outra perspectiva, voltada para ocupações irregulares, favelas, ou, na terminologia usual em documentos oficiais, “invasões”.

Presentes desde os primeiros anos de Brasília, as favelas foram alvo de sucessivos planos de erradicação, com o intuito de manter intacta a paisagem exemplar idealizada para a nova capital. A prática de transferir habitantes de áreas irregulares para cidades-satélites situadas à distância do Plano Piloto iniciou-se em fins dos anos de 1950 e logo se tornou uma política de governo, orientando a expansão urbana da capital e sua formação como metrópole. No entanto, essa mesma política, marcada pela exclusão e pela restrita oferta de moradia, acabou também dando origem a novas favelas, num ciclo que se repete até hoje. A exposição convida a percorrer mapas, fotografias e dados de órgãos públicos que buscaram identificar, controlar e remover as ocupações irregulares. Esses documentos revelam um processo meticulosamente planejado, com base numa dura lógica: oferecer o mínimo de recursos às pessoas que seriam realocadas, com a expectativa de que elas encontrassem, por meio do esforço próprio e de redes de solidariedade, soluções para a vida em cidades satélites. As imagens testemunham o trabalho conjunto dos membros das famílias para sobreviver a essas condições e construir seus lugares de moradia. Ao mesmo tempo, as políticas de desfavelamento também suscitaram oposições e mobilizações coletivas. A exposição reúne alguns dos panfletos que circularam de mão em mão durante assembleias e manifestações ocorridas em ruas e praças de Brasília. Esses eventos articulavam várias pautas, além de moradia: salário, direitos políticos e equidade racial. 

A experiência de viver em espaços precários e de enfrentar transferências forçadas marcou a trajetória de grande parte da população mais pobre do Distrito Federal. Embora muitos desses locais tenham desaparecido, fragmentos e vestígios das memórias familiares permitem entrever dimensões íntimas e subjetivas dessas vivências. Obras contemporâneas sobre a periferia de Brasília chamam a atenção para o impacto duradouro das políticas de erradicação e para a continuidade de práticas excludentes. A exposição sugere que, mais do que “invasões”, a apropriação coletiva de espaços urbanos pode ser capaz de produzir novos lugares de moradia, convivência e reivindicação de direitos. Esta exposição foi parte de um projeto mais amplo desenvolvido pelo grupo de pesquisa interdisciplinar Capital e Periferia, com apoio do Conselho Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico (CNPq). O objetivo do grupo é ir além da ênfase usual no Plano Piloto e sua emblemática arquitetura para tratar do modo como espaços periféricos ao centro modernista foram sendo concebidos, ocupados e representados. Tais espaços não são considerados secundários ou, como frequentemente se afirma, deturpações do projeto monumental de Brasília, mas sim parte intrínseca e vital da história da capital. Nessa perspectiva, a exposição provoca a pensar nas estreitas articulações – e não apenas contraposições – entre o que se entende por planejado e não-planejado, formal e informal. Os visitantes são convidados a interagir, deixando registradas suas próprias histórias e memórias acerca de lugares e eventos que são parte de sua trajetória na capital. 

A partir de dados e documentos provenientes de arquivos institucionais e acervos familiares, ao lado de obras contemporâneas, a exposição indaga de que modo políticas de remoção de favelas moldaram a formação de Brasília e marcaram a memória de seus moradores. A intenção é questionar algumas das narrativas consolidadas sobre a história da capital e estimular uma reflexão sobre a ocupação de espaços urbanos, considerando, para além da noção de “invasão”, a criação de novos lugares e a expressão de demandas coletivas.

A exposição contou com duas montagens diferentes: uma na Galeria Risofloras em Ceilândia e outra na Galeria Christina Jucá, na Faculdade de Arquitetura e Urbanismo. O evento de abertura da exposição contou com a realização da roda de conversa Diálogos para além do Eixo, realizada em parceria entre o IPHAN, o grupo de pesquisa Capital e Periferia (UnB) e o Programa Jovem de Expressão. Uma versão digital da exposição pode ser encontrada no Museu do Cerrado, em parceria com  a plataforma Google Arts & Culture.

A exposição recebeu o prêmio Amílcar de Castro do IAB-DF na categoria Cultura Arquitetônica.

Mais trabalhos

Um patrimônio centenário em Brasília: processos patrimoniais e discursos relativos a antecedentes da Nova Capital. Daniela Barbosa e Maria Fernanda Derntl. 2023.

Este trabalho consiste numa análise documental de dossiês de tombamento relativos a construções erguidas antes da construção de Brasília e localizadas no território do Distrito Federal. Trata-se do Museu Histórico e Artístico de Planaltina, da Igreja São Sebastião de Planaltina,

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