Mesa redonda “Memórias, representações e preservação do urbano”, no 19º Seminário de História da Cidade e do Urbanismo, em Maringá. 2026

Que significados uma cidade adquire para quem a construiu, mas teve de estabelecer moradia à distância dela? Como interpretar relatos derivados de memórias, por natureza subjetivas e imprecisas? Essas são algumas indagações debatidas na mesa redonda, que pretendeu, a partir de testemunhos de migrantes que foram trabalhar na construção de Brasília, suscitar uma discussão mais ampla acerca do potencial e das dificuldades de estudar representações sociais e memórias.

O intuito foi promover o compartilhamento de experiências a partir de um tipo de fonte que vem sendo bastante utilizada por pesquisadores e pesquisadoras no campo da história da cidade e do urbanismo: entrevistas e testemunhos orais. Tais fontes podem ser um material valioso para conhecer o cotidiano e as vivências de pessoas e grupos cujas histórias foram negligenciadas ou mal registradas. Por meio de seus relatos, é possível apreender diversas percepções sobre  processos de formação de cidades e analisar a elaboração de identidades individuais e sociais. No entanto, as fontes orais também impõem grandes desafios à análise. Seu caráter impreciso e subjetivo foi, por muito tempo, considerado um defeito, a ser superado por meio do cotejamento com documentos tidos como mais confiáveis. Numa perspectiva distinta, entende-se, mais recentemente, que o processo ativo e seletivo de construção de memórias é, em si mesmo, de interesse para a análise. A tensão entre evidência e representação, própria dos documentos históricos, também permeia o relato oral, que é, ao mesmo tempo, indício do que aconteceu e expressão do modo como isso foi assimilado por quem narra suas recordações.

Em Brasília, fontes orais foram buscadas já na primeira década de sua construção, como forma de acessar narrativas alternativas àquilo que era veiculado por protagonistas políticos e técnicos, ou ainda para preencher lacunas em documentos de governo. Essa abordagem subjaz à criação do Programa de História Oral do Arquivo Público do Distrito Federal, no qual se encontram os depoimentos orais discutidos nesta comunicação. Consideramos aqui 83 entrevistas realizadas entre os anos de 1995 e 2005 com pessoas que se mudaram para Brasília entre fins dos anos de 1950 e os anos 1960, e participaram dos momentos iniciais da formação das cidades satélites de Taguatinga, Ceilândia, Núcleo Bandeirante e Planaltina. A intenção, porém, não é vê-los como fontes opostas ou alternativas a outros documentos, mas analisar o modo como expressaram tanto entusiasmo por Brasília quanto críticas e dificuldades, além de assimilar, a sua maneira, tópicos emanados de discursos políticos. 

Destacamos quatro temas principais e inter-relacionados nas falas das pessoas entrevistadas: o cotidiano, a habitação, a comunidade e as demandas. Em cidades satélites marcadas pela precariedade e pela ausência de serviços urbanos básicos, a vivência cotidiana de seus moradores foi estabelecendo referências materiais e simbólicas. Emergem, nos relatos, práticas tradicionais de ocupação de espaços e lugares de sociabilidade não previstos nos planos urbanísticos, como os locais onde ficavam torneiras públicas e bicas de água. A habitação e a aquisição de um lote para morar são tópicos fundamentais nas memórias analisadas. A moradia inicial de boa parte das pessoas entrevistadas foi um barraco de madeira, construído por elas mesmas, em áreas de ocupação irregular ou em cidades satélites. A sensação de precariedade e instabilidade está presente em relatos sobre frequentes mudanças em razão da busca por moradia e trabalho, de transferências forçadas ou da imposição de planos urbanísticos em locais já habitados. 

Outro tópico dos depoimentos é a formação de um espírito comunitário na construção de cada cidade satélite. O empenho conjunto para erguer casas e superar dificuldades aparece associado a uma crença compartilhada nos ideais da criação de Brasília. Tal como políticos e autoridades também relataram, havia uma sensação de união em prol do objetivo comum. A análise busca ver esses relatos de migrantes não como mera ilusão ou nostalgia, mas como parte da elaboração de códigos que organizam a convivência social em novos espaços. Por fim, procuramos mostrar como recursos retóricos semelhantes são utilizados pelos entrevistados para expressar demandas relativas ao presente de suas comunidades.

Compartilhamos impasses e questões teórico-metodológicas relativas a fontes orais, com o intuito de refletir conjuntamente sobre seu emprego em estudos realizados em outros contextos e com objetivos distintos. Ainda que se trate das especificidades da construção de Brasília, as questões e problemas da periferia da capital levam a pensar sobre experiências semelhantes em cidades brasileiras e latino-americanas.

Mais trabalhos

Um patrimônio centenário em Brasília: processos patrimoniais e discursos relativos a antecedentes da Nova Capital. Daniela Barbosa e Maria Fernanda Derntl. 2023.

Este trabalho consiste numa análise documental de dossiês de tombamento relativos a construções erguidas antes da construção de Brasília e localizadas no território do Distrito Federal. Trata-se do Museu Histórico e Artístico de Planaltina, da Igreja São Sebastião de Planaltina,

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